“Intervenções Grupais – O Psicodrama e seus métodos, lectura recomendada

El pasado 2 de abril se lanzó en San Pablo el libro  “Intervenções Grupais – O Psicodrama e seus métodos” organizado por Maria da Penha Nery eMaria Inês Gandolfo Conceição.

Comparto a continuación un capítulo del libro:

                   Cida Davoli  – Lucia H. Nilson – Márcia Batista

                    

     Se não se cria a noção de que a cidade pertence aos seus habitantes, e não aos donos do poder, que sentido faz governar?[1]

 

Psicodrama Público no CCSP 

Para refletir sobre Psicodrama Público e a direção de grandes grupos vamos nos valer da experiência do Psicodrama Público realizada no Centro Cultural São Paulo.

Há alguns anos um número extenso de psicodramatistas brasileiros vem dando mais atenção à função sócio-política do Psicodrama, sendo para eles uma questão ética manter este compromisso. Para as autoras essa função é realizada predominantemente nos psicodramas públicos.

Desde agosto de 2003, os Psicodramas Públicos do CCSP são realizados todos os sábados, ininterruptamente, das 10h30 às 13h, com uma média de público de 60 a 70 pessoas. Os mais diferentes temas são trabalhados sob diversificadas direções psicodramáticas.

Desde o principio montamos uma equipe de profissionais que se incumbem de dirigir e convidar psicodramatistas para coordenar o grupo a cada sábado. Esta equipe garantiu a assiduidade semanal e diversidade do trabalho. Para garantir a ampliação da rede sociométrica, todo convidado é imediatamente aceito por todos. A única exigência é que ele seja psicodramatista e tenha experiência com grupos.

O método moreniano é usado e reestudado, de uma maneira ou outra, por todos os diretores que ali trabalham. O que temos percebido é que dirigir naquele espaço passou a representar uma reciclagem entre os psicodramatistas já formados e uma extensão para a formação de novos psicodramtistas.

Objetivos do Psicodrama Público

1. Criar espaços públicos que possam acolher diferentes  subjetividades, onde seja possível a troca de idéias, valores e experiências de vida através da construção coletiva de histórias dramatizadas.

2. Possibilitar a vivência psicodramática de vários papéis. Tanto de novos papeis alheios à sua experiência cotidiana, como de velhos papeis sociais vistos de novas perspectivas.

3. Contar e na medida do possível criar sua própria historia enquanto indivíduo e cidadão.

4. Expandir possibilidades de expressão e defesa de projetos individuais e coletivos assim como de identificação de aliados e colaboradores para intervenção na vida pública e privada.

5. Facilitar reflexões éticas a partir de experiências cotidianas.[2]

Contrói-se assim:

Um inventário de afetos.

Um mapa de São Paulo.

Uma cartografia psicodramática.

Um laboratório de vidas

Uma das qualidades do Centro Cultural São Paulo é que ao ser um local aberto, de fácil acesso, coloca em relação pessoas que de outra forma, pela rigidez da estrutura social, dificilmente dialogariam.

O Psicodrama Público inicialmente pretendia incluir os moradores de rua que circulavam e moravam nas redondezas do Centro Cultural. Algumas destas pessoas de fato hoje participam. Apesar da arquitetura da sala Adoniran Barbosa – absolutamente aberta ao “mundo”-, e de algumas tentativas por parte de alguns diretores de trazê-los para “dentro”, alguns se mantém “fora” – talvez por considerar aquele espaço privado, ou por qualquer outro tipo de impedimento que percebam. Outros  eventualmente, criam coragem e ultrapassam este limite imaginário e participam.

Como exemplo deste contato em um psicodrama cujo tema era sobre alimentação – falava-se sobre uma família comendo sardinhas e ovos – o grupo presente mostrava um certo desdém a esta “mistura” quando, já quase ao final da sessão,  estes “homeless” entraram (eram 4 meninos de rua) muito timidamente, rindo muito, talvez “turbinados” por alguma droga,  e expressaram que comer sardinha com ovo era muito bom!!!!

Este é o panorama geral deste trabalho, reconhecido tanto pelo público, e pela direção do CCSP, como por toda a comunidade psicodramática, nacional e internacional. Temos certeza, que este projeto vai de encontro a  utopia moreniana.

Moreno e o Psicodrama Público

O termo Psicodrama Público, não consta na literatura moreniana. Ele é introduzido por seus seguidores.

Mesmo quando Moreno dirige um grande público no Komödienhaus, em abril de 1922, buscando respostas ao impasse sobre o futuro da liderança do Império Austro-húngaro, seu principal biógrafo – Marineau[3] – o define como o primeiro SOCIODRAMA e não como Psicodrama Público.

No entanto, apesar de ter sido nomeada mais recentemente, tem sido uma prática desde o surgimento do Psicodrama. As sessões de Moreno denominadas Teatro da Espontaneidade e mais tarde de Teatro Terapêutico, realizadas ainda em Viena, guardam muitas características em comum com o que se atribui ao termo Psicodrama Público. Eram práticas que tinham um desejo de escapar das quatro paredes do consultório e de realizar uma proposta de cunho fortemente social, fundamentada em seus princípios éticos de co-responsabilidade, como a define Marilena Chauí no pos facio do livro Descolonizando o Imaginário.

Se a função terapêutica do psicodrama tem sentido, este consiste em abrir a porta para fora do recinto do consultório, em colocar uma escada para que se possa descer do palco e viver o drama dos homens na companhia deles. Toda a questão consiste em saber se o psicodrama, e sobretudo o sociodrama são capazes de tal ação[4].

Fonseca define:

O psicodrama público é o verdadeiro psicodrama de J. L. Moreno. Dirigir uma sessão aberta em que não se conhece o grupo, nem o protagonista, nem os egos auxiliares (originados do grupo) é o supremo desafio para o psicodramatista. Ele não conta como trabalha, ele demonstra. O psicodrama público não tem script previsível, é novo a cada apresentação. O ritual se repete, mas o produto é sempre inesperado. Quem e como será o protagonista? Como será a direção? Qual será a ressonância do grupo? Nada é previsível, tudo é novidade! A sociodinâmica do psicodrama público não se insere na dinâmica dos pequenos grupos, tampouco na psicologia das massas. Os cinco instrumentos (diretor, protagonista, egos-auxiliares, palco e platéia), as três etapas da sessão (aquecimento, dramatização e compartilhamento)e as técnicas (desempenho de papéis, inversão de papéis, duplo, espelho, etc.) do psicodrama são os trilhos por onde corre o trem da espontaneidade. A ‘espontaneidade’ no psicodrama é diferente do ‘espontaneísmo’ do happening que é anárquico e narcísico.

Menegazzo[5] define Psicodrama Público como:

Técnica originalmente utilizada por Moreno em Beacon e em Nova York. Os grupos eram abertos e amplos. Eram compostos circunstancialmente, de modo espontâneo. O critério sociométrico era o de participar de uma experiência psicodramática pública.  O protagonista que atuava em cada sessão devia resguardar dados de sua própria identidade, para manter o anonimato necessário.

Este tipo de atividade era decorrente de uma cultura religiosa predominante nos EUA– cristãos protestantes – e de suas éticas de confissões públicas, que coincidiam com a cultura hassídica base da teoria Moreniana.

Para nós, o adjetivo publico dado ao Psicodrama,refere-se mais ao lugar onde se realiza e a não restrição para entrada e saída no trabalho. Decorre destas duas características, alguns novos procedimentos psicodramáticos, equipes de trabalho diferenciadas, éticas revistas.

 

Outras denominações para esta mesma prática têm sido usadas como: sessão aberta, ato socionômico, ato psicodramático, sociodrama público e mesmo axiodrama. Essa diversidade nas modalidades de se dirigir, esta bem explanada por Rodrigues[6]. A denominação varia como também seu entendimento. Como veremos mais para frente deste capitulo.

O grupo no Psicodrama e no Sociodrama

uma terapia tem que conter toda uma multidão.[7]

Apesar da diferenciação teórica que Moreno, ou seus seguidores fazem entre Sociodrama e Psicodrama – o primeiro tem como foco o grupo, e o segundo o indivíduo – encontradas nas próprias palavras de Moreno:

O verdadeiro sujeito do sociodrama é o grupo. É o grupo como um todo que deve ser colocado no palco para resolver seus problemas. Mas como o grupo é apenas uma metáfora e não existe per se, o seu conteúdo real são as pessoas inter-relacionadas que o compõem, não como indivíduos privados, mas como representantes da mesma cultura.[8]

Sociodrama tem sido definido como método profundo de ação que trata das relações intergrupais e das ideologias coletivas. Entendemos  que não se pode pensar numa direção psicodramática grupal – seja ela publica ou não, onde indivíduo e grupo estejam desarticulados – todo e qualquer papel consiste numa fusão de elementos privados e coletivos.[9]

O grupo, como representante de uma sociedade e de uma cultura – é a matriz dos papeis desempenhados pelos indivíduos, que por sua vez, constituem um grupo – uma sociedade, uma cultura. . Lembrando Moreno:  “o EU advêm dos papeis;  não existe papel sem      contrapapel;  o papel é a menor unidade social,cultural.[10]

Outro dia, um frequentador bastante assíduo dos Psicodramas Públicos no CCSP disse, jocosamente, que fazíamos uma propaganda enganosa……. porque o que fazíamos era, na verdade, um Sociodrama, e não um Psicodrama Publico.

Este frequentador estava coberto de razão, pois o Psicodrama acabou sendo o nome mais consagrado e passamos a adotá-lo sem um rigor terminológico. Muitos psicodramatistas já tentaram muda-lo para outros  mais condizentes com a obra de Moreno. Mas Psicodrama é a denominação que ainda  predomina.

Psicodrama ou Sociodrama ambos se desenvolvem pelo jogo de papeis.  Por revelar, resolver os conflitos intergrupais, interelacionais, entre indivíduos, através de cenas sociopsicodramaticas e  de seus protagonistass.

O que se vê na cena psico- sócio – dramática é esta fusão do coletivo e do privado. Portanto o que se pode “ler” na dinâmica grupal são tanto as questões individuais como as coletivas. Mesmo o trabalho com protagonista, deverá sempre ser considerado como um emergente grupal, um porta-voz do grupo em seu sofrimento, um representante grupal. E não como uma exposição individual, narcísica, sem o devido respaldo grupal. A historia pessoal do protagonista a serviço de psico-socio -dinâmica grupal. A própria definição de protagonista inclui o grupo, uma vez que não se elege um protagonista descolado do grupo, de seu tema de sua cena.

Em outra sessão no CCSP se focava a relação entre um casal. Na situação psicodramatica a protagonista, trazendo uma história vivida com seu marido, dizia: “Você tem que acreditar em mim, você não pode ficar olhando para sempre na mesma cena do passado”. E o marido respondia: “Não confio. Não posso acreditar em você”.

Esta relação de desconfiança entre este casal, também falava da dinâmica deste grupo. Poderia referir-se sobretudo  a uma senhora que passou a freqüentar o CCSP há pouco tempo com um comportamento bastante intempestivo. Este comportamento  provoca no grupo algum rechaço a ela. Neste dia porém, esta senhora teve um comportamento mais adequado – menos disruptivo, e mesmo assim,  o grupo permanecia reagindo a ela como no passado recente, não podendo ver sua mudança. Como o marido da cena não podia ver a mudança de sua mulher. O próprio grupo fez  esta correlação durante o compartilhar.

De maneira geral podemos considerar que fazer Psicodrama seria a construção e criação de uma ou mais histórias por um grupo, onde cada um e todos se responsabilizam e estão implicados pelo todo e não só pela sua parte. História essa que é sempre autobiográfica (deste grupo), revelando as suas tensões, tramas, conflitos, modus operandi, atrações e rejeições.

Como o grupo é parte de uma sociedade, essa história construída nos revela também a anatomia  e  a fisiologia sócio cultural: placenta social dos papeis e  dos contra-papeis funcionamentos e gêneses dos papéis e contra-papeis. Identificamos as diferentes estruturas e funcionamentos dos grupos;  grupos autoritários,  grupos democráticos, grupos onde poucos falam, grupos onde poucos escutam etc. Pessoas mais saudáveis tem mais possibilidade de criar vínculos, redes, sociedades mais saudáveis, seja na escola, no consultório, nos Centros Culturais, nas praças publicas.

Ainda nas plavras de Marilena Chauí:

A loucura não é patologia nem anormalidade, mas impossibilidade da convivência como c0-existencia de seres diferenciados[11]

Esta diferenciação entre Sociodrama e Psicodrama não varia em seu objeto de estudo – interseção entre grupo e indivíduos, mas em outros aspectos de sua prática. Pode variar quanto ao lugar – espaço público ou privado – quanto ao tempo – ato ou processo, com ou sem tema predefinido, inspirada em histórias individuais ou coletivas, grupos instituídos ou espontâneos, tematizados ou não

O público e o privado no Psicodrama público

O Psicodrama Publico  integra o individuo e o grupo na mesma cena dramática.

A cena, ainda muito pouco teorizada na teoria psicodramatica, da conta desta intersecção entre grupo e individuo. A cena inclui todas as ações dramáticas presentes num grupo. O palco psicodramatico, diferente do palco teatral estabelecido previamente e por seus atores profissionais, está em todos os lugares onde ocorre uma ação e é esta vai compondo a narrativa deste grupo.

Pela definição de público temos: o que pertence a uma comunidade, a todos, o que é aberto a qualquer um, sem caráter secreto, transparente, universalmente conhecido.[12]

Muitos diretores de psicodrama têm inúmeras preocupações sobre esta prática no que se refere à ética, segurança, confidencialidade ou como lidar com as dificuldades e necessidades particulares de algum de seus membros.

Na definição de Menegazzo[13] fica clara esta preocupação: O protagonista que atuava em cada sessão devia resguardar dados de sua própria identidade, para manter o anonimato necessário. Como se pode resguardar uma identidade numa ação que é pública?

Essas preocupações tão importantes, no entanto precisariam ser reequacionadas.

Mascarenhas[14] diz que nada mais equivocado que confundir a intimidade trazida pelos psicodramas públicos com estas cenas dos reality show. “ Nestes programas é incentivada a exclusão e a sobrevivência dos mais aptos. A imagem é obscena, pois a observação é fora da cena, isto é, pelo buraco da fechadura, devassando sua intimidade”. Todas essas tendências atuais de exposição da intimidade vão ao encontro e prometem satisfazer uma vontade geral do público: a avidez de bisbilhotar e “consumir” vidas alheias.

Continua Mascarenhas;“Talvez esta questão da intimidade não obscena seja uma das mais relevantes num Psicodrama Público ”. A necessidade de ocultar estas tramas entre quatro paredes é, muitas vezes o que traz o adoecimento e a patologização de determinados comportamentos, alienando os indivíduos. “No Psicodrama, ao contrário, trabalhamos com a inclusão de pessoas sociométricamente periféricas, e sempre através da implicação, isto é, da co-experiência, co-existência e co-criação”, complementa Mascarenhas.

Merengue, em um texto questionador sobre a atualidade do Psicodrama  intitulado Fronteirar[15]apresenta um novo conceito criado por um teórico francês chamado Serge Tisseron – a extimidade (extimité) que pretende dar conta deste fenômeno – a privacidade constantemente exibida nas telas –   se pergunta: No que toda essa extimidade pode estar afetando a forma com que fazemos Psicodrama?

O intimo é tudo que se aproxima do que sou e me conhece e se dá a conhecer. Já o privado é o não  publicado – privado dos outros. O outro esta “privado’ de mim e a da forma como sou. “Aquilo que o individuo sofre na chamada intimidade muito possivelmente é sofrido, de algum modo, por tantos outros indivíduos dentro de uma mesma cultura e de uma sociedade. O espaço grupal sempre funcionou como o lócus privilegiado para o encontro destas “privacidades”. No experimento sócio-psicodramático a fronteira entre o público e o privado é derrubada para que possamos reconhecer a humanidade que nos aproxima.,” diz Merengue.  Este é o caráter publico de todo Psicodrama. “A busca por aquilo que nos oprime, a partir das constatações que todos nos sofremos com isso, é concretizado no palco psicodramático”. Em outro lugar diz: “ Por outro lado, cada vez menos os relacionamentos acontecem no campo da privacidade. Existe um desejo de exibir aquilo o que já chamamos de privado. Ou seja, a intimidade passou a ser mostrada de modo indiscriminado.”

Há aqui uma confusão entre o que seja intimidade e o que seja privado. Esta cena pretensamente intima que se mostra fartamente nas mídias, parece ser mais a imagem mercadológica que temos sobre intimidade. Mais do que verdadeiramente possam ser conhecidos como todos nossos prazeres, nossas angustias, nossas alegrias; e com quem, como e quando se dão são privadas do outro participante, mas somente do espectador passivo. No psicodrama,  o publico espectador é ativo, implicado com a cena intima compartilhada. Entendemos que o Psicodrama Público deve criar espaço de intimidade entre duplas, trios e se possível entre todo o grupo para que diferentes visões de um mesmo script público possam ser vistas, vividas e questionadas. Co-responsavelmente.  Desprivatizacnao da intimidade

Reforça-se a idéia do cuidado do diretor para que o grupo participe desta exposição implicado e responsável por ela. Retoma-se a idéia da cena psicodramatica. A cena é composta pelas ações do palco e pela platéia. Não é um espetáculo que vemos já pronto, mas uma oportunidade onde existe o convite para a participação. A ação da platéia, quietos, participantes, omissos, faz parte da cena deste grupo. Não existe separação, mas diferenças de papel. A cena não é o reality show exibido na tela de TV ou do computador, a cena psicodramatica  inclui, ator, espectador,ambos responsáveis pelo que esta sendo realizado.

Múltiplas cenas, múltiplos ângulos

A cena é sempre múltipla e pode ser vista em diferentes ângulos. O diretor precisa se descapturar do ator principal – protagonista. Muitas vezes a cena se desenvolve em outros palcos.

Esta mirada “cubista” para as cenas nos permite identificar com mais clareza tensões existentes. As tensões podem existir entre cenas. Não só entre papeis.  Como afirma Moreno[16], a cena põe em cheque o poder e controle do diretor, uma vez que este se dá conta de que há mais coisas em jogo do que ele pode conter ou perceber. Portanto cabe ao diretor colocar em evidência diferentes perspectivas do que se passa no grupo. Alguns diretores entendem algumas ocorrências como interferências que muitas vezes são sentidas ou relatadas pelo psicodramatista como um problema no desenvolvimento de uma cena. Isto porque se acredita em cenas lineares – a natureza não tem linhas retas. Novamente a descaptura é importante para o diretor poder “orquestrar” todos os instrumentos, solos e músicas que este grupo produz e achar soluções estéticas e psicodramáticas para ser entendida por todos. Muitas vezes a função do diretor é focalizar uma cena, que já se realiza em outro palco, explicitando a nova narrativa.

Recentemente, dirigindo num sábado no CCSP, a cena era a de um protagonista que iria aniversariar e não sabia se gostaria de festejar ou não, por conta de se lembrar muitos de outros aniversários, onde seus pais “esqueciam” de parabenizá-lo, o que causava uma mágoa grande. Existia um foco de atenção importante nesta cena entre os presentes, mas na platéia, ao mesmo tempo, ocorria outra cena: uma senhora gritava com outro frequentador porque ele não parava de falar ao celular. Duas cenas. Uma no contexto psicodramático e outra no contexto grupal.  Ou seriam dois contextos psicodramáticos? Alem de passar um pito no frequentador ela também dizia: “com coisas tão importante acontecendo com X (o protagonista) você fica falando no celular!” Duas cenas, dois contextos. Público, a cena é de todos, com todos. O que fazer com “a cena fora da cena”? Excluir? Qual delas? Não haveria uma concomitância, uma sobreposição, alguma articulação? Será que uma não complementava ou decorria da outra?  Nesta ocasião a proposta apresentada pelo diretor foi intercalar as duas cenas, colocando uma como linha cruzada da outra.

O papel do diretor

O diretor deve buscar a organicidade da cena e não a homogeneidade da mesma, buscar que cada elemento/sujeito da cena se entenda e entenda o movimento da mesma, se responsabilizando e jogando seu papel por ela e nela.

O diretor precisa levar cada um dos atores a eleger o papel a partir do qual falam e agem, e se apropriarem do mesmo. Em alguns momentos a cena entra em crise, pois há novos papeis que querem surgir da plateia ou dos atores em cena. Sua explicitação, e não sua eliminação, pode auxiliar a continuidade da cena.

Moreno acreditava que a saúde mental encontrava-se nas relações complementares e satisfatórias que poderíamos estabelecer com nossos pares. A construção de projetos comuns – tele – deveria ser o tempero para a boa saúde das relações e, portanto do desempenho dos papeis. A direção de um Psicodrama Público deveria se preocupar em propiciar relações complementares, inclusivas e co-responsáveis dentro de um grupo. Criar uma atitude de continência entre seus participantes. Essa atenção necessária do diretor de Psicodrama Público, de incluir e implicar inviabiliza quaisquer caminhos prontos que alguns profissionais optam por trazer ao trabalho.

A história a ser contada tem sua importância, mas também a tem, a construção sociométrica que o grupo engendra para a sua construção.

A dramaturgia de um grupo não só se revela pelos diálogos, mas por toda a movimentação grupal, seja de inclusão, seja de exclusão, ou ambas. A direção de psicodrama deve ser capaz de ler nas linhas e nas entrelinhas, nas linhas cruzadas, nas sub-cenas, seja em qual palco estiver.  Polissemia complexifica esta história e a enriquece, perdendo sua linearidade, inexistente em qualquer forma de vida.

É o caráter público que permite o desvelamento das tramas que se tecem entre os indivíduos e as forças presentes na sociedade.

Temos visto a direção psicodramática resvalar, muitas vezes para a compreensão do que se passa com determinado individuo mais do que para  a explicitação das forças grupais e/ou sociais presentes. E neste momento que a preocupação ética com comportamentos individuais, desvinculados do projeto dramático coletivo, ganha  força. Ressaltando neste tipo de direção o  afastamento dos princípios psicodramáticos. Portanto não nos cabe cuidar ou descuidar  do anonimato do protagonista como quer Menegazo em sua definição mas sim incluir e implicar todos

Stella Fava, em uma discussão num grupo de estudo ressalta que devemos ter claro que as ações são individuais, mas suas conseqüências nunca.

Ainda que realizemos um ato isolado na privacidade de nossa casa, este tem uma conseqüência social. No trabalho público esta verdade surge de forma ainda mais explícita, se lidamos com a tensão existente. Se pensarmos, como nos diz Moreno (2008), que a realidade externa, a matriz sociométrica e a realidade são estruturas em permanente tensão, esta tensão, ao ser revelada, abre caminhos para novos posicionamentos individuais.

Numa atividade que abre espaço para a matriz sociométrica, saberes são confrontados e lidera quem tem respaldo sociométrico para isto. Em outras palavras: aquecer os presentes para este trabalho, criando possibilidades de reconhecimento do grupo presente, dando espaço e palavra para os que desejam utilizá-los. A partir daí temos a possibilidade da co-construção de um trabalho dramático que, pela suspensão das regras do que é para as múltiplas possibilidades do como se, permite a conexão com as forças espontâneas e criativas presentes em cada um e muitas vezes cortados pelas exigências das conservas culturais que na maioria das vezes predominam em nossas ações.

Nas palavras de Fuganti:

Chamamos ética não a um dever para com a Lei ou o Bem, nem tampouco a um poder de segregar ou distinguir o puro do impuro, o joio do trigo, o Bem do Mal, mas a uma capacidade da vida e do pensamento que nos atravessa em selecionar, nos encontros que produzimos, algo que nos faça ultrapassar as próprias condições da experiência condicionada pelo social ou pelo poder, na direção de uma experiência liberadora, como num aprendizado contínuo.[17]

As mudanças somente ocorrem quando conseguimos mudar as referencias que as mantém. O resto são mudanças superficiais. Algumas direções psicodramáticas podem fomentar homens criativos, participantes; outras – homens disciplinados. Moreno quer um homem espontâneo e criador. Ele luta contra homens obedientes e subservientes.

Uma história única?

No teatro, e no psicodrama a história é contada por quem? Pelos atores? Ou são os espectadores, que vendo um diálogo, uma cena, fazem suas narrativas? A vida não tem sentido. Nós criamos um sentido para ela.

É possível construir uma história única? Esta pode ser uma pergunta interessante que os diretores de psicodrama podem ter, ao dirigir no CCSP onde o grupo é diversificado e traz informações do seu background social de múltiplas maneiras. Como poderíamos pensar a construção  de uma história num grupo, com esta diversidade étnica, pedagógica, psicoterapêutica, cultural, social e econômica que participa deste evento? Um caos, uma diversidade grande, um acordo de inicio impensável.

Por exemplo; vamos construir uma família. Quais os inúmeros modelos de família que podemos encontrar nesta população tão diversificada?

Tanto o cinema como o teatro e a literatura tem usado a fragmentação como linguagem. As “histórias” que o autor conta, se tece na fragmentação e na (des)continuidade delas. Babel, filme dirigido por Alejandro González Iñárritu e roteiro  de Guillermo Arriaga, é composto por três historias. Uma se passa no Marrocos, outra no Japão e outra  na divisa entre EUA e México. Os recortes entre uma historia e outra nos fazem perguntar se são três historias, ou uma historia única contada de forma descontínua.

Forçar a construção de uma historia linear e única a partir de um suposto protagonista tende a eliminar e não a compreender as tensões existentes entre  a realidade externa, a matriz sociométrica e a realidade. Aplainar a permanente tensão destas estruturas não permite uma mudança nas formas como nos relacionamos. Revelá-las publicamente é a nosso ver uma forma de favorecer a mudança, tanto do individuo como do grupo social.

Mas se  temos mais de uma história no grupo, quais os instrumentos que a Socionomia oferece para que não exista uma parede entre a historia x e a historia y – como costuma ser em nossa sociedade tão dividida entre classes – aparentemente desarticulada, mas que sabemos, profundamente relacionadas.

Às vezes esses impasses provocam nos diretores a necessidade de criação de novos procedimentos psicodramáticos. A forma como se instrumenta a construção coletiva de uma historia pelo diretor, faz toda a diferença para a reconstrução de modos de ser. Tanto no público como nos diretores de psicodrama.

As referências que sustentam determinados comportamentos, relações, configurações sociais, podem ser desveladas pelo grupo na dramatização. Isto é, se a dramatização estiver mais a serviço da revelação do que da representação. Dito de outra forma mais a serviço da criação do que da repetição.  Por exemplo o dissecamento, ou a anatomia, desta díade relacional: o comportamento autoritário e seu correlato a obediência, pode ser realçado na dramatização a partir das técnicas básicas do Psicodrama (inversão, espelho, interpolação de resistência), mas também por meio de estéticas teatrais que evidenciem a genealogia do papel, suas referencias, suas bases. Identificar estas “forças” que nos atravessam, que somos atravessados, possibilita a saída do jugo involuntário, presente nos jogos de papeis, geradas pelas expectativas sociais e recuperamos, ou podemos recuperar, nossa potencia para realizarmos alguma mudança. Uma ou todas.

Estas conservas se exprimem a partir de papéis cristalizados, que revelam mais o script social pré-definido que a subjetividade criadora dos indivíduos. Vê-los em cena ainda que conservados  permite elucidar o contexto histórico, social e cultural de sua construção. Somos constituídos na relação de co-experiência, co-vivencia e co-ação e é desta forma também que podemos evoluir quando através de vínculos nos permitimos visualizar o que são determinações da cultura em que estamos inseridos e nossa forma de dialogar com isto.

Um dos finais

É no trabalho grupal que a potencia do Psicodrama se faz realidade, e é no Psicodrama publico que sua potencia se realiza mais amplamente.

Apesar da teoria psicodramatica  ser fundamentada na espontaneidade e criatividade, portanto no diferente, no diferenciado, e de termos muitas formas de fazer psicodrama, vemos sessões padronizadas, com começo, meio e fim bastante previsíveis.

A vida é previsível?

 

 

Experimentar criar um palco psicodramatico onde possamos nos libertar, pelo menos por um momento, das imagens que nos moldam – uma utopia –   apurando nossa visão e atenção, identificando o que nossos olhos não vêem, ou ainda, imaginando outras formas de se viver a vida.

Numa sociedade de mercado em que vivemos onde o que predomina são pessoas padronizadas, iguais, com mesmos desejos e outras mesmices, com modismos acachapantes, “consumidores” exemplares. Entendemos que qualquer psicodrama que fuja da padronização, que vá em busca da espontaneidade, do surpreendente no grupo e das cenas, que propiciem encontros inusitados, cenas singulares e instigantes seria um psicodrama que rompe com o  paradigma da conformidade, do “mundo da calça jeans”.

Não se trata de criar um aparato espalhafatoso para se dirigir, mas estar atendo e aproveitar  a diversidade/riqueza grupal que existe,  sua polifonia, e oferecer um palco para que o que esta submerso, possa ser revelado.

O diretor, junto com o grupo não reproduz o mundo, a vida,  cria um mundo cheio de ruidos, “de som e furia”, de contradições, com começos e fins indefinidos, ambivalentes. Como a vida é. Ou pelo menos deveria ser. Sem explicações, ou melhor, com muitas interpretações, mas sem moral da historia. Facilita que cada um veja pelo seu ponto de vista, podendo ou não ser compartilhado, e com suas singularidades.

Claro que temos aí que ter um diretor que acredita na força do grupo, suporta o caos, e transpõe seus medos, o que não é tarefa pequena.

Proletariado psicoterapico, ou socioterapico e pobreza política. O primeiro termo – cunhado por JLMORENO[18], se refere a pobreza de relações de uma pessoa, o numero pequeno de papeis desempenhados por elas, uma rede social escassa e frouxa. O segundo conceito – pobreza política – de Pedro Demo[19] – refere-se  a idéia de que pobreza não implica apenas estar privado de bens materiais, mas sobretudo estar privado de construir suas próprias oportunidades. Ignorar seu próprio estado de pobreza.

Tendo como perspectiva estes dois conceitos, os indivíduos que se reúnem aos sábados no CCSP, constroem suas próprias historias, revêem historias de vida,  suas e de outros, estabelecem relações diferenciadas, inusitadas ( a aluna classe media com o morador de rua, para dar um exemplo) para fazer um trabalho coletivo, horizontal, sem hierarquias. Ainda que numa micro sociedade, podemos perceber, nestes psicodramas, com muita satisfação, a importância social deste tipo de trabalho. Surge um novo desenho social que poderá “contaminar” outros contextos, e assim, rizomaticamente, crescer, modificar, retramar. Invisível, porem previsível e desejável.

 

 

Bibliografia

Psicodrama – JLMoreno -1975  Cultrix SP

Jose Fonseca – Psicoterapia da Relação – Agora 2000

RBP – vol 16 nº 1 Ano 2008 – pg 65 (Pedro)

RBP – vol3 Fasciculo I ano 1995 pg 15 (Cida)

Psicoterapia de Grupo – mestre Jou – 1974

Pg pg 101

Rosa dos Ventos – orgSilvia Petrilli – 1994 – cap 13 e 8

O teatro terapêutico – Moyses – Papirus – 1990

RBP – vol 10 nº 1 ano 2002 pg 83

Vol 12 nø 1 ano 2004 pg 33

RBP vol17 nº 2 ano 2009

Indicações Bibliograficas realcionadas ao tema

 



[1]  Dr. Antonio Carlos Mazaroto Cesarino

[2] – Objetivos criados pela equipe de coordenaçnao do CCSP – site

[3] Marineau, René F.- Jacob Levy Moreno 1889-1974 – São Paulo: Ágora, 1992. p.80

[4] Descolonizando pg 264 -1979

[5] Dicionário de psicodrama

[6] RBP vol16 nº 1 ano 2008 pg 75

[7] Referência marilena chauí …

[8] Moreno.Psicodrama. p. 413

[9] Moreno,Psicodrama p. 410

[10] ver onde esta

[11] Descolonizando pag 264 1979

[12] Hoauiss

[13] Menegazzo… dicionário de psicodrama

[14]Mascarenhas, Pedro RBP vol 16 p. 65

[15] Merengué,Devanir. Fronteirar .

[16] Moreno, p…

[17] Fuganti, p. www.armazemmemoria.com.br/psicodramadacidade

[19] DEMO, Pedro: Pobreza Política. São Paulo: Cortezi; Autores associados,1991.

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Lic. Guillermo Vilaseca

Lic. Guillermo Vilaseca

Guillermo Vilaseca es Licenciado en Psicología de la Universidad de Buenos Aires, Terapeuta EMDR, Psicodramatista y Psicólogo Social. Escribió el Libro: Por qué los hombres no entendemos a las mujeres, publicado en 2013 por Ediciones B en Argentina y en 2014 también en México.

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